sexta-feira, 19 de março de 2010

A vida ensina

Se você pensa que sabe; que a vida lhe mostre o quanto não sabe.

Se você é muito simpático mas leva meia hora para concluir seu pensamento; que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema, aquele que começa pelo fim.

Se você faz exames demais; que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba achando.

Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.

Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência.

Tanto mais lúdica quanto mais complexa.

Tanto mais complexa quanto mais consciente.
Tanto mais consciente quanto mais difícil.

Tanto mais difícil quanto mais grandiosa. Se você pensa que disponibilidade com paz não é felicidade; que a vida lhe ensine a aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge.

Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar e próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente sentido e se apresentem tão sedutoras quanto enganosas.

Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer as verdades na hora da raiva.

Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois.

Que a vida ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la.

Que aquele garoto que não come, coma.

Que aquele que mata, não mate. Que aquela timidez do pobre passe.

Que a moça esforçada se forme.

Que o jovem jovie.Que o velho velhe.

Que a moça moce.

Que a luz luza. Que a paz paze.

Que o som soe. Que a mãe manhe.

Que o pai paie.

Que o sol sole.

Que o filho filhe.

Que a árvore arvore.

Que o ninho aninhe.

Que o mar mare.

Que a cor core.

Que o abraço abrace.

Que o perdão perdoe.

Que tudo vire verbo e verbe.

Verde. Como a esperança.

Pois, do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo.

A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.


Arthur da Távola

quinta-feira, 18 de março de 2010

Auto-estima

Não adianta: a pessoa pode ser linda, ter um bom emprego, morar num apartamento maravilhoso, dirigir um carrão. Também pode ter um papo ótimo, ser agradável, gentil e sensual. Se, apesar de tantas qualidades não tiver uma boa auto-estima, dificilmente conseguirá conquistar alguém ou, o que é mais complicado, manter a conquista.A auto-estima é a mola propulsora de uma série de outros sentimentos fundamentais", diz a psicóloga Vilma Ferreira.

Quando a pessoa se sente segura em relação a si mesma e se gosta, torna-se carismática. Além disso, não desenvolve sentimentos negativos de auto-depreciação, como possessividade, medo de perder e ciúme", afirma. A auto-estima elevada também nos impede de embarcar em relacionamentos complicados, doent ios ou equivocados, porque a intuição funciona como um alarme.

Você tem uma boa auto-estima quando...
- gosta de si mesmo(a), por isso se valoriza. Não se deixa maltratar nem aceita menos do que sabe que merece. Mas também não é arrogante nem tem mania de grandeza.

- é seletivo(a) e não se envolve com qualquer pessoa. Sabe escolher bons amigos e bons parceiros. Não se liga a alguém por carência afetiva ou sexual.

- tem auto-confiança e sabe defender suas crenças e pontos-de-vista. Por isso, não sai por aí concordando com o que os outros dizem apenas para ser agradável. Nem se deixa ficar arrasado(a) pela atitude ou palavras de outra pessoa. Respeita a opinião alheia mas sabe o que quer.
- tem auto-respeito e sabe se colocar. Não admite ser destrat ado(a) nem compactua com comportamentos que vão contra os seus valores. Por saber se respeitar, respeita a todos, sem julgamentos. Sabe que cada um vive um estágio de consciência e é responsável por si.

- é alto astral, alegre e otimista. Acredita no futuro e em si mesmo(a). Não perde tempo com desânimo nem aluga os outros com reclamações.- não é vítima de sentimentos negativos como ciúme, possessividade, insegurança. Trata-se de alguém que se garante!

- não aceita tornar-se um refém do próprio passado, por mais difícil e doloroso que ele tenha sido. Sabe que a vida acontece aqui e agora e que não é por acaso que o presente se chama "presente".


Fernanda Dannemann

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ante as provas que surgem na vida

É normal que o sorriso não esteja estampado a sua face em todos os dias da sua existência...


Que haja momentos em que prefira parar a ir adiante...


Que as pedras do caminho machuquem bastante a ponto de até pensar se conseguirá resistir...


Que haja instantes em que esteja repleta de questionamentos e não saiba onde encontrar a solução...

Que olhe ao seu redor e sinta falta de companheiros que não mais compartilham da mesma estrada...

Talvez em alguns dias, sinta-se envolvida pela nostalgia dos tempos que não mais retornam...


Fique confusa diante de tantos caminhos e nenhuma garantia...


Por instantes, podem até nascer receios naturais diante da tarefa que surge e convoca sua participação...
Certa manhã, pode acordar e não conseguir vencer a angústia que queima em seu peito...


Não encontrar a saída que tanto busca...
Não saber como fazer para vencer a tristeza...


Nem como controlar a raiva que explode em muitos minutos...
Talvez sinta-se cercada por desafios...

Lágrimas podem nascer, causadas pela sensação de impotência diante do sofrimento que ainda não consegue contornar.


Resignação e paciência parecem tão distantes...
Em alguma curva pode ser que sinta-se perdida e passe a indagar o rumo de seus passos.


E talvez sinta-se mais confusa em não encontrar a resposta...
Em alguma hora no decorrer do seu dia, pode ser que encontre-se pensativa diante de tantos problemas que clamam por soluções...
Veja-se rodeada de incertezas...
Preocupada pelo estado em que se encontram entes queridos.
E com a crescente vontade de estar em um lugar onde só reinasse a paz...
Quantas situações podem tirar o seu equilíbrio?
Envolvê-la na agonia...
E criar a imagem de que está sem chão, sem rumo e sem esperança...


Sentir-se cada vez mais agitada, impaciente com quem está ao seu lado, apressada, tendo um monte de coisas para realizar e ficando com a sensação de que nada se resolve...


Talvez almeje mudanças, mas se aflija com a demora em vê-las concretizadas...


Com tantas adversidades, pode ser que sua confiança fique abalada...
Seja complicado demais reencontrar o ânimo....

E mais ainda perseverar pelos caminhos que lhe aguardam.


Quem sabe olhe ao seu redor e só enxergue sombras a se aproximar...
Espinhos por todos lados...


E uma cruz pesada demais para carregar...
Quantas noites pode vir a passar em claro enumerando o que não deu certo em sua vida...


As oportunidades perdidas...


Desilusões e rupturas que marcaram a sua história...


Em outras noites, pode ser uma dor física que lhe enfraqueça...


Ou talvez seja o coração apertado demais para permitir o repouso de seu corpo...
Acorde com a sensação de que nem descansou...
Fatigada fisicamente e perturbada espiritualmente...


Sinta-se presa ao pessimismo...


Desesperada diante dos conflitos familiares que estão a sua frente.
Assim como dos embates profissionais que necessita enfrentar...


Fardo pesado demais a ser carregado.
Como é difícil manter a fé acesa...
Pode ser que no agora o tempo pareça lento demais...


Ou mudanças inesperadas ocorram sem o seu consentimento...


Venha a ser ferida pela incompreensão...


Seus passos tornem-se vacilantes diante a tempestade que se aproxima...

Tenha dificuldades em conceder o verdadeiro perdão e sofra mais ainda...


Adote a descrença em seu dia a dia, deixando de lado a luz que traz em seu íntimo...


Não creia mais em seus talentos...


Esteja cansada diante de tantas batalhas que não cessam...


Cansada também, de a cada dia buscar dentro de ti a força para prosseguir mesmo diante de tantos infortúnios...


Falte-lhe paz...


Seus pensamentos diante de tantas quedas sofridas, tornaram-se sombrios...


Mantenha aceso à mente apenas a falsa idéia de que a renovação não mais ocorrerá.


Não consiga mais pronunciar uma prece...


Uma palavra ao Alto...


E realmente sinta-se desamparada sem forças para prosseguir...


Tendo a sua frente apenas a escuridão a assombrá-la diante das provas que surgem em seu caminho...


Provas...
Quantas provas...
Como superá-las?
Tantas provas...
Sonia Carvalho

terça-feira, 16 de março de 2010

Entre a dor e o nada

Não quero defender as relações falidas e que só fazem mal, nem estou sugerindo que as pessoas insistam em sentimentos que não são correspondidos, em relacionamentos que não são recíprocos, mas quero reafirmar a minha crença sobre o quanto considero válida a coragem de recomeçar, ainda que seja a mesma relação; a coragem de continuar acreditando, sobretudo porque a dor faz parte do amor, da vida, de qualquer processo de crescimento e evolução.
Quando você se perguntar “do que adianta amar, tentar, entregar-se, dar o melhor de mim, se depois vem a dor da separação, do abandono, da ingratidão?”, pense nisso: então você prefere a segurança fria e vazia das relações rasas?
Então você prefere a vida sem intensidade, os passos sem a busca, os dias sem um desejo de amor? Você prefere o nada, simplesmente para não doer?
Não quero dizer que a dor seja fácil, mas pelo amor de Deus, que me venha a dor impagável do aprendizado que é viver.
Que me venha a dor inevitável à qual as tentativas nos remetem.
Que me venha logo, sempre e intensa, a dor que me ensina a amar melhor...
Prefiro o escuro da noite a nunca ter me extasiado com o brilho da Lua...
Prefiro o frio da chuva a nunca ter sentido o cheiro de terra molhada...
Prefiro o recolhimento cinza e solitário do inverno a nunca ter me sentido inebriada pela magia acolhedora do outono, encantada pela alegria colorida da primavera e seduzida pelo calor provocante do verão...
E nesta exata medida, prefiro a tristeza da partida a nunca ter me esparramado num abraço...
Prefiro o amargo sabor do “não” a nunca ter tido coragem de sair da dúvida...
Prefiro o eco ensurdecedor da saudade a nunca ter provado o impacto de um beijo forte e apaixonado... daqueles que recolocam todos os nossos hormônios no lugar! Prefiro a angústia do erro a nunca ter arriscado...
Prefiro a decepção da ingratidão a nunca ter aberto meu coração...
Prefiro o medo de não ter meu amor correspondido a nunca ter amado ensandecidamente.
Prefiro a certeza desesperadora da morte a nunca ter tido a audácia de viver com toda a minha alma, com todo o meu coração, com tudo o que me for possível...
Enfim, prefiro a dor, mil vezes a dor, do que o nada...
Não há – de fato – algo mais terrível e verdadeiramente doloroso do que a negação de todas as possibilidades que antecedem o “nada”.
E já que a dor é o preço que se paga pela chance espetacular de existir, desejo que você ouse, que você pare de se defender o tempo todo e ame, dê o seu melhor, faça tudo o que estiver ao seu alcance, e quando achar que não dá mais, que não pode mais, respire fundo e comece tudo outra vez...
Porque você pode desistir de um caminho que não seja bom, mas nunca de caminhar...
Pode desistir de uma maneira equivocada de agir, mas nunca de ser você mesmo...
Pode desistir de um jeito falido de se relacionar, mas nunca de abrir seu coração...
Portanto, que venha o silêncio visceral que deixa cicatrizes em meu peito depois das desilusões e dos desencontros...
Mas que eu nunca, jamais deixe de acreditar que daqui a pouco, depois de refeita e ainda mais predisposta a acertar, vou viver de novo, vou doer de novo e, sobretudo, vou amar mais uma vez.
Rosana Braga

quarta-feira, 10 de março de 2010

Como se desfazer de pessoas difíceis


Eu acredito que tenho muita autoridade para escrever esta reflexão, porque eu mesmo fui uma pessoa difícil, ainda que só depois de muitos anos tenha me dado conta disto.
Eu pensava que os outros eram os difíceis, e só quando entendi isto que vou compartilhar melhorei substancialmente minhas relações, aprendendo a desfrutá-las muito mais.
Uma vez, enquanto me queixava a respeito de uma pessoa próxima com uma amiga, com quem aprendi muito, ela me perguntou se eu não agia da mesma forma que estava criticando em meu parente. Fiquei pensando e me dei conta que eu fazia exatamente o mesmo ou pior do que criticavanele.
- Vê?, disse minha amiga, tudo o que te incomoda em alguém é algo que tu fazes ou fizeste contigo ou com outros e que tu não queres reconhecer.
Se julgar alguém como intolerante, talvez esteja sendo intolerante ao julgar essa pessoa; se me incomodo porque penso que alguém é agressivo, posso estar sendo agressivo em meu julgamento; é mais fácil ver no outro que aceitar em mim.
Quando no trânsito ou em uma fila me irrito porque a pessoa da frente não anda tão rápido como espero que faça e a chamo na minha mente de insensível ou sem consideração, eu estou sendo sem consideração ou insensível em meu julgamento dessa pessoa.
Se me engano e me chamo de estúpido ou idiota mentalmente, estou sendo intolerante comigo e, depois, poderá ser mais fácil tachar os outros de intolerantes ou agressivos sem reconhecer o que, com frequência, faço comigo.
Encontro-me acusando meus filhos, meus pais, meu cônjuge ou amigos de não me escutarem, e falo com raiva ou, às vezes, apenas penso. Repito mil vezes o que quero dizer, reprovando-os, porque não me entendem a mim ou as minhas necessidades, quando escutar é abrir-se ao que o outro quer comunicar, ao que necessita; logo sou eu quem estou obscurecendo, com meus lamentos, as vozes dos que me cercam, para depois queixar-me de que não me escutam.
Um dia conversei com uma senhora de 70 anos, inteligente e muito vivaz, que me contou como sua mãe a tinha desvalorizado e maltratado quando ela era criança. E recordava como se fosse hoje, dizia ela, as palavras e os detalhes das agressões ocorridas 60 anos atrás. Apesar de sua mãe ter morrido há 30 anos, esta senhora continuava repetindo essas cenas dentro de si, com raiva e detalhes, como se precisasse se assegurar de reviver em seu presente a dor de seu passado.
Ela estava sendo menos compassiva e mais cruel com ela mesma do que as reprovações que dizia ter recebido de sua mãe.
Eu fiz o mesmo! Talvez, ao repetir uma vez e outra vez a cena, queira castigar o outro ou repassar alternativas do que poderia ter sido, mas de qualquer forma, ao fazer isso com meus pensamentos e sentimentos causo mais dor para mim do que o outro me gerou, com suas palavras ou seus atos, e perco nesse instante a possibilidade de cuidar mais dos meus pensamentos.
Aprendi a me tratar a partir de meus pensamentos e emoções como quero que me tratem os demais.
Que bem que me faz tratar-me com mais gentileza! Não me refiro a não ter julgamentos de valor; eu posso opinar que não compartilho algo que outra pessoa fez ou pensar que eu faria diferente. O que torna difícil e doloroso meu relacionamento é quando me apego a esse passado e a esses julgamentos carregados com emoções negativas. E por mais razões lógicas que me dê, eu estou criando com isso pensamentos de dor e sombras em mim e nos que me rodeiam.
Eu sempre recebo o que estou dando aos demais: se eu sinto raiva, desconfiança, ou compreensão e gentileza pelo outro, eu sinto primeiro e mais intensamente essas emoções. Caso eu veja alguém como um monstro, sou eu quem está criando e sofrendo o monstro em minha mente; estou mantendo o monstro vivo em meus pensamentos.
Finalmente: na realidade nós não nos relacionamos com os demais, mas com a ideia ou o julgamento que temos em nossa mente dessas pessoas.
Se me aproximo de alguém pensando que essa pessoa é agressiva, ou fofoqueira, ou egoísta, estarei prevenido e será com essa parte da pessoa que me relacionarei mais vezes. Descobri seres maravilhosos, que durante anos estiveram a meu lado e que não me permiti desfrutar, senão muito tarde, porque valorizei mais os meus julgamentos e as minhas prevenções do que me permiti encontrar, valorizar e desfrutar os tesouros que a vida, através deles, havia colocado para mim.
Então eu me propus considerar cada pessoa que tenho a meu lado como meu mestre, que está ali para me ajudar a ser mais livre e feliz. Não para me fazer feliz, porque ser feliz é responsabilidade minha.
Uma pessoa difícil, uma pessoa que me cria dificuldades, está fazendo um bom trabalho para mim: ajuda-me a refletir-me, a me ver nela; leva-me, talvez, a buscar como superar essa dor que sinto ao ligar-me a ela nessa emoção. E como sei que não posso mudar ninguém, e essa relação me causa dor, para sair dessa dor busco outro nível de paz mais profunda dentro de mim para que, na próxima vez, quando aparecerem pessoas ou situações como essa, tenha aprendido a superá-la. E quanto maiores e profundas sejam as dores que superei, maior será minha liberdade e minha paz interior.
Que liberdade e que paz eu senti quando entendi que meu pai alcoólatra, abusivo e irresponsável, não veio para a minha vida para me fazer sofrer, mas para me mostrar como, com seu sofrimento, eu poderia aprender a evitar o meu. A raiva ou as atitudes dele que me trouxeram dor, me conectaram com a minha própria dor. Mas entendi que aquela dor que eu sentia por instantes, ele a vivenciou ainda mais profundamente, durante toda sua vida. E morreu só e sem sair dela.
Sei que aqueles que me julgam ou me criticam estão me dizendo algo que eu digo a mim mesmo ou que faço. Mesmo que às vezes o façam de uma forma rude, esses mestres estão me ajudando a encontrar o muro seguinte que devo superar para a minha paz.
É bom recordar quando eu era aquele ser obscuro e difícil que tão facilmente julgava ou via nos outros.
Com frequência lembro como cometi erros por não saber como agir melhor naqueles momentos de minha vida. Isto me ajuda a ter mais compaixão comigo e com os demais. Não se trata de não me cuidar, ou de salvar alguém, ou de tirá-lo de onde está, porque esse é seu próprio trabalho, que cada um fará em seu próprio momento. O meu é me conectar com o melhor de mim, não para ensinar alguém ou ser melhor, porque isso é arrogância, mas para colocar o meu foco em ver, em encontrar e desfrutar a parte maravilhosa de cada pessoa, para ver o céu através da tormenta. E se ajo assim com o outro, certamente estarei agindo assim primeiramente comigo.
Sempre recordo em minha vida como as pessoas mais duras, agressivas ou perversas me ajudaram, cedo ou tarde, a ser alguém mais livre e mais feliz. E com essa experiência ajudei outros a serem mais livres e mais felizes.

Hoje sou grato a todos esses mestres que me ajudaram a encontrar e a desfrutar o melhor de mim.
Carlos Devis

domingo, 7 de março de 2010

Idades


Cada pessoa tem uma idade física e uma idade espiritual. Por exemplo, uma pessoa pode ter 30 anos de idade física. No entanto, sabemos que, como espírito, ela pode ter trilhões de anos, pois já pré-existia antes do nascimento físico.


Logo, um bebê é um ex-adulto com trilhões de anos de evolução e alguns meses de idade física. Já um velhinho é uma ex-criança com vários anos de idade física, que está na iminência de ser, novamente, a criança-adulto-espírito de trilhões de anos espirituais, quando a morte o chamar de volta à cronologia cósmica.


E, assim, o velho ex-criança e a criança ex-adulto movem-se no ritmo da reencarnação, sob a batuta do Criador, que as crianças chamam de "Papai do Céu", e os velhinhos chamam de Deus, Alá, Brahma, Jeová, Tupã e outros.


Já no plano espiritual, o Criador é chamado de "Velho-Criança"; velho porque é a sabedoria eterna; criança porque é a esperança renovada a cada experiência e tem sempre alguma novidade para oferecer aos espíritos em evolução. E, sobretudo, porque tem sempre o sorriso terno da criança e maturidade do ancião em cada olhar.
IDADES II
Existe uma velhice que ninguém nota.E não tem nada a ver com a idade do corpo.
É um estado de consciência!
Quando permitimos pensamentos velhos e bolorentos em nossa mente, envelhecemos realmente...E, quando deixamos as emoções estranhas tomarem conta de nossas vidas, destruímos o nosso equilíbrio e detonamos o coração.
Sim, nós envelhecemos por dentro, quando esquecemos o que somos verdadeiramente.
E nossos semblantes ficam carregados, independente da idade do corpo.
Por isso, há jovens com expressões envelhecidas; e anciões com expressão criativa e divertida, olhando a vida como crianças.
Ah, nós envelhecemos muito quando ficamos tristes e distantes de nós mesmos.
Então, precisamos mergulhar bem fundo em nós mesmos, para reconhecermos a Luz do Eterno que habita em nossos corações.Somos consciências espirituais!
Sempre fomos; sempre seremos...
Somos centelhas vivas de um Grande Amor.
No momento, estamos integrados a um corpo de argila, que nos foi emprestado pela Mãe Terra, para o nosso aprendizado e evolução.
Mas não temos idade alguma; porque somos imperecíveis e apenas entramos e saímos dos corpos transitórios.Não nascemos, nem morremos; só entramos e saímos dos corpos que são pedacinhos vivos da Mãe Terra, que d'Ela surgem, e a Ela retornam, em seus ciclos vitais.
E nós também envelhecemos quando não tratamos bem o envoltório de argila que Ela nos empresta com tanto carinho.
E também quando agimos com ingratidão...
Ah, nós envelhecemos quando não respeitamos aos outros, à Mãe Terra, e a nós mesmos.
E isso não tem nada a ver com a idade do corpo, mas com aquilo que acalentamos dentro de nossos corações.
Nós somos mais do que imaginamos.
Somos a luz das estrelas na carne; descemos do Céu para dar brilho ao corpo de argila e deixarmos pegadas luminosas na pele da Mãe Terra.
Viemos de tão longe...
Então, por que, às vezes, agimos de forma tão estranha e ficamos envelhecidos por dentro?
Ah, por que nos esquecemos da luz que habita em nossos corações?
Nós viemos de um Grande Amor...
Então, vamos renovar nossos sonhos e disposições, que não têm idade alguma.
Cada dia é uma bênção, e fonte de eterno recomeço...Não somos machos ou fêmeas, altos ou baixos, nem jovens ou velhos.
Somos o Eterno; o Infinito; e viemos de tão longe...Sim, viemos trazer a luz estelar para a Mãe Terra. Enquanto Ela nos empresta o corpo, nós lhe trazemos o brilho universal, porque somos espíritos.
Somos centelhas vivas do Supremo!
Quando rimos, renovamos a expressão do rosto; e, quando amamos realmente, sem ilusões ou tolices, nossos olhos se tornam pequenos sóis.
Ah, nós somos mais do que pensamos.
E viemos de tão longe...
Então, que nossos pensamentos e sentimentos sejam sempre luminosos.
Nós estamos aqui por um motivo.
Mas jamais descobriremos isso pelas vias da mente racional.
Nem com o passar dos anos na carne; e nem com todo conhecimento do mundo.
Porém, uma parte de nós sabe e compreende o mistério.
Sim, aquela parte que habita em nossos corações.
Aquela que é a verdadeira essência espiritual. Aquela luz, que veio de tão longe...
Lá do Infinito Celeste.
Por causa de um Grande Amor, que não tem idade alguma.
Essa luz somos nós mesmos.
Então, vamos assumi-la. Vamos ser felizes, aqui e agora.
Ah, viemos de tão longe...
Então, vamos fazer valer à pena.

Wagner Borges

terça-feira, 2 de março de 2010

O café está na mesa



Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite. Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!
José Antonio Oliveira de Resende

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Criando expectativas

Um dos caminhos mais eficazes para a frustração é criar expectativas. É da natureza da mente esperar que algo muito desejado aconteça rapidamente.
E, quando vivemos de modo inconsciente, não conseguimos perceber este jogo que nos leva sempre a esperar pela realização urgente de nossas esperanças e a sentir uma grande decepção quando elas não se concretizam.
Visto que não temos o poder de determinar a vontade e as atitudes alheias, torna-se impossível que possamos ter garantida a realização de todas as nossas expectativas.
Nas relações afetivas é onde este tipo de engano mais acontece, pois sempre projetamos no outro nossos desejos e esperamos ansiosamente que ele os satisfaça plenamente. Quando isto não ocorre, a reação é de revolta, pois nos sentimos traídos por aquele que não preencheu nossas expectativas.
Viver uma vida consciente pressupõe, antes de tudo, aprender a perceber quando estas ilusões começam a se formar em nossa mente e aceitar o fato de que não temos o dom de manipular a realidade para que ela se amolde ao nosso desejo.
A partir daí, tudo começa a fluir num novo ritmo. Passamos a nos relacionar de modo realista, enxergando o outro exatamente como ele é, sem qualquer fantasia ou ilusão.
Além disso, se torna possível aceitar, com tranquilidade, que nem sempre a realidade corresponderá aos nossos anseios, por mais que lutemos para isto.
Então, o bom senso e a sabedoria podem, finalmente, tomar o lugar da angústia, da ansiedade e do desespero.
Este não é um aprendizado fácil, mas é, sem dúvida, essencial para que nos libertemos do sofrimento criado por nossa própria mente, que insiste em nos manter prisioneiros da ilusão. A felicidade só se torna possível quando pudermos perceber o quanto nossas próprias expectativas criam a maioria das frustrações que experimentamos ao longo da vida.


"...Vocês estão todos vivendo em sombras. Vocês pensam, vocês projetam, vocês imaginam, vocês sonham... Vocês vivem em sombras, em suas esperanças. O que vocês têm ganho com suas esperanças? Apenas imaginação vazia que amanhã algo acontecerá, que não aconteceu agora, e vocês sentem-se preenchidos. E nunca acontece. O que acontece amanhã é a morte - e a morte cria medo pela simples razão de que vocês não estão conscientes.
O medo da morte é que tira o futuro de suas mãos. E vocês têm estado vivendo no futuro em sua imaginação, e a morte vem e põe uma parada: não mais amanhã. A existência não tem obrigação de preencher seus desejos e suas esperanças.
As pessoas esperam algo, nunca preenchido. Há sempre frustração ao redor. As pessoas estão vivendo em desespero, e a razão é que o que elas esperam... a existência não tem desejo, não tem razão para ir de acordo com as suas expectativas. Se você quer ser feliz, vá de acordo com a existência, onde quer que ela leve você.
Eis o que significa let-go: você simplesmente joga suas projeções, suas imaginações. E deixa a existência tomar conta de sua vida inteira. Então, não há desespero, porque não há possibilidade de tornar-se frustrado. Não há angústia e não há ansiedade, você está relaxado com a existência. O que quer que aconteça... é bom
....Toda a existência é mais sábia do que eu, então o que quer que aconteça...Não permaneça afastado, contra a existência, seja parte e sinta uma certa unidade....
O significado é que o que quer que aconteça é bom. Você tem que achar a beleza disto e a alegria disto... Somente um homem de let-go não é enganado por nada. Ele toma tudo como vem, feliz e alegremente. E se as coisas mudam, ele permite a mudança sem qualquer obstáculo, sem criar barreira para prevenir a mudança. ...Tudo é como deveria ser. Então, pacificamente estão as montanhas na noite de lua cheia... estão em paz, dançando na lua cheia
... Tudo é silêncio e paz. Não há frustração nas montanhas, não há frustração nos rios
......O homem também pode ser tão feliz como as montanhas e tão pacífico como os rios, se ele olhar para a lua e as cercanias sem qualquer mente. Sem pensar, ele também se tornará parte de toda a cena.
Mas ele permanece sempre preocupado com suas próprias idéias estúpidas. Quando toda a existência está se regojizando, somente o homem está preocupado.Você já viu uma árvore preocupada? Os animais também nunca estão preocupados. Mesmo na morte, morrem pacificamente. Pois, como tudo na existência, o que nasceu deverá morrer.
Mas a mente do homem perturba, sempre cria problemas - porque espera que as coisas sejam diferentes do que elas são. Ele não está pronto para aceitar a natureza da existência, ele a quer de acordo com ele. Este, "de acordo com ele", é toda a miséria.
Todo mundo está tentando que tudo seja de acordo consigo. Um pode dizer, outro pode não dizer - mas mesmo sem dizê-lo, sua mente está tramando pensamentos de que as coisas deveriam ser trazidas de acordo com a sua idéia - e isto é impossível.
Você não pode mudar a existência. Tudo o que você pode fazer... você pode abandonar sua mente". (Osho)


Elisabeth Cavalcante

Sol de amor

(Conversando Sobre um Grande Amor e a Luz)
É possível viver um Grande Amor, desde que o coração esteja aberto para isso.
Digo-lhe isso, porque muitos querem amar, mas de coração fechado e na base da autodefesa, por causa de emoções mal resolvidas.
Às vezes, as pessoas jogam toneladas de medo ou de ansiedade em seus melhores sentimentos, terminando por sepultar o amor que tanto queriam vivenciar antes.
Para amar, não basta só o amor; é preciso ter coragem também!Sim, coragem de se abrir e deixar a luz eclodir em si mesmo, fazendo o próprio coração ser um sol.
É um desperdício ver um Grande Amor sendo detonado por questões mal resolvidas, ou por posturas medíocres.
Porque o amor possui um alto poder de transformação e de renovação do Ser.
Quando ele chega, tudo muda. E o coração acontece...
O amor é semelhante à luz da aurora, que dilui a escuridão na linha do horizonte do Ser... E, se alguém é tocado por ele e, mesmo assim, ainda permite que as trevas rondem seu coração, é realmente uma pena.
Porque o sol é grande, mas se alguém fechar as cortinas do aposento, sua luz não penetrará ali. Da mesma forma, por analogia, se alguém cerrar as cortinas do ego na morada do próprio coração, o sol do amor não penetrará ali.
Ah, que coisa estranha é essa... Alguém desejar viver um Grande Amor e, ao mesmo tempo, ter medo da abertura causada pelo mesmo. Mas as pessoas são assim mesmo.
E nem sempre é fácil quebrar as barreiras que elas projetam contra a eclosão da luz, nelas mesmas. E, talvez, seja por isso que a dor tanto visita o coração dos homens.
E aí, em lugar do amor, surgem os bloqueios do ego; em lugar da aurora, as trevas no horizonte de si mesmo; em lugar da consciência feliz, a sensação horrível do vazio interior; e, em lugar do equilíbrio e da compreensão, fortes distorções psíquicas.
Isso porque, sem amor, tudo fica opaco. Sem o seu sol, só sobra a noite escura do Ser. Daí, eu lhe pergunto: "Você está realmente aberto para um Grande Amor e pronto para aguentar a luz da aurora despontando em seus olhos?
Está pronto para abdicar de suas trevas interiores e mergulhar na luz?
Você tem coragem de entrar num sol e queimar suas tolices e posturas medíocres?
E mais: você tem noção de que um Grande Amor é um presente?
"A partir daí, de coração aberto, reveja os seus sentimentos e pondere mais em cima dos questionamentos pertinentes a eles. Se você errou antes, então conserte. Se agora compreende isso melhor, então se cure.
Porque o amor não é uma pessoa, é um estado de consciência! E o lugar do sol é dentro do seu coração. Então, que tal levantar as cortinas e, dessa vez, deixar a luz entrar completamente?Porque, repito, não basta só amar, é preciso ter coragem. Sim, coragem de vencer a si mesmo e de reciclar-se, constantemente, para tornar-se luz, como deve ser...
Um Grande Amor não cabe num coração medíocre.
Por isso, não basta só amar, também é preciso crescer*.
P.S.:Desejo que você cresça, para que um Grande Amor seja um presente em sua vida.
E que você tenha a coragem de desembrulhá-lo em seu coração.
E que o brilho da aurora esteja em seus olhos.
E que isso preencha você de vida.E que você se sinta honrado.
E que seja muito feliz.
Com um sol no peito...
E estrelas nos olhos**.
Paz e Luz.
- Wagner Borges - apenas seu amigo, não seu guru.
- Notas: * Esses escritos são uma resposta ao e-mail de um amigo, que está muito triste porque sua amada foi embora. Segundo ele, ambos se amavam muito, mas também brigavam bastante, às vezes por coisas pequenas. E ele confessa, arrependido, que poderia ter agido de outra maneira, sem tanta arrogância; e que, agora, percebe o quanto a amava.
No entanto, essas coisas acontecem e o importante é o aprendizado que se tira delas. Mais do que lamentar-se, é preciso discernimento e coragem de ver em que ponto errou, e melhorar a partir disso. Auto-culpa não resolve nada, só leva a auto-estima para baixo. Então, é preciso crescer, mesmo quando as coisas não saem do jeito esperado. E isso não é fácil, para ninguém.
O certo é que não basta só amar; é preciso construir. E estar presente, pois os melhores jardins, quando não são cuidados devidamente, podem se encher de pragas e de ervas daninhas. E o coração é o jardim do Ser.
Para um Grande Amor florescer, não basta só amar; é preciso cuidar.
E o mais legal: o amor não é uma pessoa, é um estado de consciência.
E olhando o que escrevi para ele, fiquei pensando se esses escritos não seriam úteis para reflexões de outras pessoas passando pelo mesmo problema. Além do mais, o que eu poderia fazer por ele? Implorar a seu favor junto à sua amada, para que ela volte? Ou chorar junto com ele e compactuar com sua baixa auto-estima?
Como não sou assim e sempre procuro tirar o melhor de todas as situações, escrevi tudo isso para ele. E como o resultado foi legal e ele ficou contente com a atenção e os toques dados aqui, estou disponibilizando os escritos em aberto (mantendo o nome do meu amigo em sigilo, naturalmente), para todos.
Sim, talvez outros estejam passando pelo mesmo problema.
Oxalá esses toques possam ser úteis para eles também, de alguma maneira.
E o fato de ter escrito tudo isso não me isenta da necessidade de ponderar sobre as mesmas coisas e de melhorar o meu próprio coração.
O certo é que um Grande Amor é um presente e nem todos têm condições de reconhecê-lo. E, quando ele chega, tudo muda. E quem ama, sabe.
O amor é o amor; não se explica, só se sente...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Mudar mesmo quando não acreditamos na mudança


Todos nós sabemos o quanto é difícil mudar de atitude, mesmo que isso implique em seguir um caminho melhor.
O cérebro percorre automática e velozmente os caminhos neuronais já formados há muito tempo. Por isso, fazer o que nos é habitual é tão fácil. Mas quando se trata de formar um novo caminho neuronal, uma nova sinapse, é preciso tempo e esforço para seu aprendizado. É como quando aprendemos a dirigir. Primeiro, temos que prestar atenção em todos os detalhes, depois dirigimos sem ter de pensar no que estamos fazendo.
Assim também ocorre com as atitudes mentais, quando pensar e reagir de um determinado modo torna-se familiar e nossa reação é automática. Por exemplo, o hábito de sentir-se alvo de ataques externos. Por termos vivido muitas vezes agressões em relação à nossa pessoa, conhecemos o papel do "bode expiatório". No entanto, nem sempre estamos sendo atacados, mas facilmente nos sentimos alvo das agressões alheias... Identificar quando isto está de fato ocorrendo e nosso hábito de nos sentir atacados é a primeira tarefa do autoconhecimento. A segunda se trata de aprender a sair cada vez mais rápido do campo de batalha! Seja ele real ou imaginário...
Pema Chödrön comenta numa palestra sobre Felicidade (veja True Happiness em www.amazon.com) sobre três estados que nos encontramos diante das mudanças.
O primeiro é quando já compreendemos que uma atitude mental nos faz mal, então, saímos dela automaticamente. O segundo, quando já sabemos que nos faz mal, mas estamos parcialmente convictos de que somos capazes de mudar e, a terceira, quando sabemos que nos faz mal, mas acreditamos ser impossível mudar.
No primeiro estado, deixar de agir de um modo negativo já não exige mais esforço, pois se tornou uma escolha. Como desistimos de nos torturar, de nos sentirmos frustrados diante de certa atitude mental, toda vez que ela vem à tona naturalmente a identificamos e buscamos saídas efetivas para deixá-la.
Por exemplo, o ressentimento. Toda vez que percebemos que estamos ressentidos, lembramos de escolher deixar essa postura de nos sentirmos prejudicados. Esta lembrança é a sabedoria intuitiva que nos diz: "Procure uma saída, dê um salto, caia fora".
No segundo estado, apesar de estarmos convictos de que determinada atitude mental é negativa, nos sentimos propensos a permanecer nela. Seja porque ainda temos a esperança de tirar algum proveito desta postura ou porque nos sentimos tão familiarizados com ela, isto é, ela faz tão parte de nós, que duvidamos se somos capazes de mudar.
Facilmente nos encontramos presos neste estado, pressionados pela expectativa de sermos quem idealizamos ser e a realidade na qual nos encontramos.
Podemos já ter entendido que cultivar a atitude de que deveríamos ou poderíamos fazer isso e aquilo nada adianta, se não a colocarmos em prática. Viver em constante estado condicional nos leva a nos distanciar de nós mesmos! Afinal, quando estamos sob a custódia de idealizações exigentes, deixamos de nos sentir reais para nós mesmos!
Mas, apesar de já saber que de nada ajuda nos culparmos, nos colocarmos para baixo, ainda não temos a capacidade de mudar.
Neste segundo estado mental, a saída encontra-se em buscar o caminho do meio: nem nos exigir demais, nem nos denegrir. Assim, este estado de meia confiança pode tornar-se um possível ponto de partida. Nele, começamos a desenvolver a autocompaixão. Deste modo, tornamo-nos mais flexíveis e empáticos em relação a nós mesmos e aos outros. Lenta, mas, suavemente, o caminho obstruído começa a se abrir.
Pema Chödrön ressalta que neste momento é importante lembrar que não importa se nos consideramos merecedores ou não da mudança, porque a escolha de mudar não é uma questão moral baseada no julgamento de ser ou não merecedor de felicidade, mas sim da escolha de melhorar e progredir, isto é, de dar o salto.
Por fim, temos o terceiro estado: quando entendemos que a mudança é necessária e poderia nos trazer algo positivo, mas, simplesmente, não acreditamos sermos capazes de mudar.
Ficamos presos neste estado enquanto ainda acreditamos que esta atitude vai nos trazer algum benefício, mesmo que passageiro. Há algo que nos conforta diante da idéia de não termos que nos esforçar para mudar. Desta forma, enquanto não nos sentirmos angustiados, iremos permanecer tal como estamos. No entanto, inevitavelmente, uma hora ou outra, seremos tocados pela dor de tal atitude mental negativa. Então, cada vez que nos sentirmos novamente desesperados, estaremos mais descrentes que podemos encontrar uma saída. É um círculo vicioso: sofremos, nos acomodamos com o sofrimento e sofremos novamente, mais e mais...
Por isso, não vale a pena cultivar este terceiro estado. Uma maneira de passar deste estado sem saída, para o segundo -o da meia confiança- é reconhecer os momentos, mesmo que fugazes, de bem-estar.
O antídoto é a autocompaixão: despertar o desejo de se resgatar do próprio sofrimento. Assim, gradualmente nos tornamos receptivos para receber ajuda, seja alheia ou de nós mesmos, isto é, quando reconhecemos que temos recursos internos que não estávamos usando.
Mesmo sendo difícil mudar um padrão negativo, não nos resta outra escolha se não quisermos continuar sofrendo!
Não estamos condenados a sofrer para sempre. Aliás, a única virtude da negatividade é que ela também é impermanente!
Bel Cesar

O coração


O coração é a morada da alma. Nele, se dá o milagre da transmutação de nossas mazelas amorosas, -aquelas que são originadas pelas reações do ego, e que nos fazem cultivar sentimentos como raiva, ódio, ressentimento, rejeição, amargura- em uma outra forma de manifestação do amor, que é a compaixão.

Quando temos dificuldades de relacionamento é porque, geralmente, projetamos inconscientemente no outro nossas próprias fraquezas, como o individualismo, o egoísmo, a falta de segurança interior, então o olhamos com uma atitude de julgamento e crítica.

Um aprendizado fundamental é que nossas dificuldades e a dos demais seres humanos são semelhantes, senão iguais. Colocar-se no lugar do outro é uma arte que todos precisamos aprender, pois sem esta atitude compassiva, será impossível desenvolver o amor incondicional.

Não é nada fácil assimilar este aprendizado. Principalmente, quando a outra pessoa não é alguém próximo de nós, mas um estranho que está seguindo uma existência em total sintonia com seu lado sombrio, identificado com a energia da violência.

Neste caso, torna-se muito difícil olhá-lo e enxergar nele nosso semelhante. Mas a compaixão não se harmoniza com qualquer forma de julgamento, ou pelo menos, não com aquela que quer fazer justiça com as próprias mãos.

Quando um ser humano se desvia, por total inconsciência, do caminho do bem, a justiça é uma ferramenta para que ele tenha a chance de rever suas atitudes. Nem sempre isto acontece, pois depende de grau de evolução de cada um, mas sob a ótica espiritual, ele é um espírito em sua caminhada evolutiva que ainda não alcançou a luz.

Ao sofrermos qualquer ato que venha de alguém nesse estágio, a primeira reação é do ego, que quer a vingança, e não perdoa aquele que lhe causou algum mal.

Somente os que já despertaram algum grau de consciência, conseguem transcender esta reação humana e perdoar, pois sabem que há, naquele ser, ainda que esteja extremamente oculta, a semente do divino.

O perdão deve acontecer em nível de alma, pois, se ele não ocorrer, mesmo que vejamos a justiça ser feita, continuaremos a nutrir por aquela pessoa, um sentimento de ódio que nos afastará de nossa essência, que é o amor.

Independente de ter sofrido algum tipo de violência, algumas pessoas vivenciam um sentimento de vitimas diante da vida. Culpam tudo e todos à sua volta, pela sensação de infelicidade que experimentam.

Quando a vida se torna muito difícil e tudo parece dar errado, é o momento de pararmos e refletirmos, pois este pode ser um sinal de que nos distanciamos demais de nosso coração.

De que, ao invés do caminho que nos leva ao autoconhecimento, erramos a trilha e acabamos nos conduzindo para o auto-engano. Redescobrir a fonte interior de amor, com a qual todos chegamos a este mundo, é a saída para que não levemos uma existência baseada na dor e no sofrimento....".

Você não sabe o que é a música do silêncio. Você só conhece uma maneira de se comunicar, e essa é verbal, por intermédio da mente.

Você não sabe como se comunicar por intermédio do coração, coração a coração, em silêncio.Você não sabe como se comunicar apenas estando ali presente, por intermédio da sua presença. Você está evoluindo, e os padrões antigos de comunicação estão ficando insuficientes. Você terá de desenvolver novos padrões de comunicação não-verbal. Quanto mais alguém amadurece, mais necessária é a comunicação não-verbal.

A linguagem é necessária porque não sabemos como nos comunicar. Quando sabemos como fazê-lo, pouco a pouco, a linguagem não é necessária. A linguagem é apenas um meio muito primário. O meio verdadeiro é o silêncio.

Portanto, não tome uma atitude errada; do contrário, irá parar de crescer. Nada faz falta quando a linguagem começa a desaparecer; essa é uma idéia errada. Algo novo tem de aparecer, e os antigos padrões não são suficientes para contê-lo.

Você está crescendo e suas roupas estão ficando apertadas. Não é que esteja faltando algo; algo está sendo acrescentado a você a cada dia.

Quanto mais você medita, mais você ama e mais se relaciona. E, por fim, chega o momento em que apenas o silêncio convém. Assim, da próxima vez em que estiver com alguém e não estiver se comunicando com palavras, e sentir-se pouco à vontade, fique feliz. Mantenha o silêncio e deixe que o silêncio estabeleça a comunicação.

A linguagem é necessária para aproximar pessoas com quem você não tem um relacionamento amoroso. A não-linguagem é necessária para pessoas com quem você tem um relacionamento amoroso.

É preciso tornar-se inocente outra vez como uma criança, e calado. Os gestos sairão - às vezes vocês sorriem e dão-se as mãos, ou às vezes vocês apenas ficam em silêncio, olhando um nos olhos do outro, sem fazer nada, só estando ali, presentes.

As presenças se encontram e se fundem, e algo acontece que só vocês sabem. Só vocês, com quem está acontecendo - ninguém mais vai saber, tal a profundidade em que acontece.

Aproveite esse silêncio; sinta-o, prove-o e saboreie-o. Logo você vai ver que ele tem a sua própria comunicação; que ela é maior, mais elevada, mais secreta e mais profunda. E que a comunicação é sagrada; há uma pureza em torno dela".

Osho, em "Intimidade: Como Confiar em Si Mesmo e nos Outros".